A VIDA NÃO VIVIDA DOS PAIS PROJETADA NOS FILHOS


                O psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961) diz em seus estudos que o maior peso que uma criança pode carregar na vida é a vida não vivida dos pais. Eu ainda acrescento: a vida vivida também! Isso porque pais e a mães projetam suas expectativas sobre os filhos. Esperam que eles tenham uma vida que eles próprios se privaram de ter ou que sigam os passos “corretos” que eles deram para atingir o “sucesso”.
                Quase todos os pais se julgam capazes de saber o que é adequado para os filhos. Sempre têm certeza que podem evitar que os filhos cometam os erros que eles próprios cometeram. Também por isso, é inevitável: os pais projetam nos filhos suas vidas vividas e não vividas. De que forma isso ocorre?
                A infância se caracteriza pela dependência da criança em relação ao mundo objetivo dos pais. A dependência física é clara, mas a dependência psicológica é ainda mais marcante porque a criança se identifica completamente com a família. Ela não é um ser à parte; ela é a família. Portanto, as crianças vão sendo moldadas, desde cedo, por esse núcleo familiar, seus valores e suas crenças. A criança, então, vai se afastando cada vez mais daquele ser original e autêntico que acabou de nascer, a chamada Criança Interior.
                E à medida que vai crescendo, outros fatores colaboram em segundo plano nessa modelagem: a escola, a religião, a sociedade como um todo. Ou seja, na vida adulta todos nós vivemos, de forma inconsciente, os reflexos do passado, da nossa infância. Não há nada de errado nisso. É natural. O problema é a amplitude do afastamento que se cria entre o ser original e autêntico, que é a criança que vem ao mundo, e o resultado da modelagem. Uma crescente divisão se desenvolve entre nossa natureza inerente e o nosso eu socializado.
                A questão de maior impacto são os “ataques” à Criança Interior, incapaz de entender e reagir às exigências do mundo adulto. Como diz o Dr. James Hollis, em seu livro “A Passagem do Meio”, “Por não possuir o poder de escolher outras circunstâncias de vida, por não possuir nem a objetividade da natureza do problema como o outro, e por não possuir elementos necessários a uma experiência comparativa, a criança reage de forma defensiva, tornando-se excessivamente sensível ao ambiente e escolhendo a passividade, a dependência ou a compulsividade para proteger seu frágil território psíquico”. Na psicologia, chamamos isso de “feridas psíquicas”, em comparação aos ferimentos físicos.
                “Estas feridas, bem como as várias reações inconscientes adotadas pela Criança Interior, tornam-se fortes determinantes da personalidade adulta. A criança não consegue incorporar uma personalidade que se expressa livremente; em vez disso, é a experiência da infância que molda seu papel no mundo. A partir do sofrimento da infância, portanto, a personalidade adulta é mais uma reação reflexa às primeiras experiências e traumas da vida do que uma série de escolhas”.
                Assim, a vida não vivida dos pais pesa sobre a criança de diversas formas. A mais comum ocorre quando os pais projetam suas frustrações na vida dos filhos, esperando que realizem aquilo que eles próprios queriam fazer e não fizeram. Nos meus atendimentos, uma vez me deparei com um pai que sempre sonhou em ser um médico de sucesso. Entretanto, a vida reservou a ele trabalhar como farmacêutico. Ele, então, imprimia sobre seu filho uma determinação inconsciente e poderosa para cumprir essa parte da vida não vivida por ele. O filho, por outro lado, revelava uma grande aptidão para arte e música – vocação repelida de forma veemente pelo pai. Como consequência, o filho tinha notas excelentes na escola, mas sofria de crises alternadas de ansiedade e depressão. Ele mostrava-se dócil e atencioso com os outros, porém teve um acesso de fúria um dia e avançou contra o pai – motivo pelo qual fui procurado. Passei a atender o garoto.
                Apesar dos meus esforços em demonstrar ao pai que seu filho tinha uma vocação diferente, ele se mostrou irredutível na decisão: o filho tinha que prestar vestibular para medicina. Quando, no processo de análise, ele resolveu confrontar o pai, meus serviços foram dispensados.
                Dez anos depois encontrei com o filho daquele médico na rua. Ele acabava de concluir a residência e optara pela cardiologia (fato interessante). Perguntei-lhe sobre o pai e respondeu-me que ele estava “do mesmo jeito”. Depois, olhou-me nos olhos e disse-me que pretendia trabalhar vinte anos em medicina para, depois de enriquecer, mudar-se para a Europa e estudar Artes. Nos seus olhos eu vi uma tristeza imensa e um vazio sem fim.
                Por outro lado, a vida VIVIDA dos pais também pode se tornar um imenso problema para os filhos. Lembro-me de uma mãe que era dentista renomada, com participação ativa em congressos, artigos publicados, participação em programas de TV e com um livro a caminho. Ela via como consequência natural que sua filha mais velha fosse a “herdeira” de seu legado e sequer cogitava a possibilidade de a garota seguir outra carreira que não fosse a odontologia.
                A filha admirava profundamente a mãe: ela se tornara um “ídolo”. Todos conhecemos a força inconsciente que um ídolo expressa, haja vista o sucesso das histórias de “heróis” exibidas pela mídia. Ou mesmo as crises histéricas da juventude frente a uma grande estrela da música mundial. Então, a filha formou-se em odontologia, começou a trabalhar com a mãe e, um ano depois, caiu em depressão - a princípio sem um motivo aparente.
                Quando chegou ao meu consultório, verifiquei que sua vocação estava ligada a viagens, mudanças de ares, trabalhar com pessoas em diversos lugares e ter flexibilidade de agenda; ou seja, o oposto do que vivia. No processo de análise, ela verificou que jamais fora ouvida pela família e que, desde pequena fora talhada para ser a sucessora da mãe. Descobriu que a única forma de se sentir amada e ter atenção era quando adotava esse papel e qualquer ideia contrária deveria ser repelida.
                Nesses dois casos, os filhos não puderam expressar a sua vocação genuína. E em ambos, um imenso vazio se instala. Mesmo ganhando dinheiro, obtendo reconhecimento profissional, mesmo tendo tudo... só não se tem a si mesmo e não se conhece a si mesmo. Caso não partamos ao encontro de nós mesmos, da nossa identidade original, da nossa Criança Interior, uma imensa dor toma conta da nossa alma e se amplifica ao longo da nossa vida... nos rasga, nos destrói. O que significa isso? Discutiremos em outro texto.
                Outra atitude dos pais também é, de certa forma, um ataque à Criança Interior. É o abandono. Mesmo numa infância privilegiada, certos pais passam a constituir entre si “um grupo à parte”. Os filhos são apenas coadjuvantes e consequência da relação deles, tendo apenas que comer, estudar e se comportar bem; afinal, têm tudo de melhor: casa, comida, escola, médicos, assistência de serviçais bem pagos e prontos para atender as necessidades deles. Esse estado de abandono é um dos mais perversos e pode produzir tragédias inexplicáveis.
                Em meus trabalhos terapêuticos, certa vez, atendi um senhor que tinha como demanda a questão do neto de 4 anos, que apresentava alguns traços de autismo que o levava a se auto flagelar. Não havia, contudo, nenhum diagnóstico neurológico que explicasse esse transtorno. Como já havia atendido casos semelhantes - quando os pais não exercem a paternidade e transferem a terceiros - pude entender o caso com certa facilidade.
                Os pais eram médicos importantes que presidiam uma associação médica e viajavam pelo mundo envolvidos em congressos e palestras. Moravam em uma mansão com todo conforto e o filho disponha da assistência de sete funcionários para dar conta dos serviços da mansão. Expliquei a questão ao avô, da forma mais detalhada e abrangente, mas a Psicologia não fazia parte do conhecimento e do interesse da família. Nestes casos, sempre é a criança que ocupa o lugar da doença. Com os pais não há nada demais; eles são brilhantes!
                A solução definitiva e profunda implica na substituição do “programa”, em nós implantado inconscientemente, pelo nosso autêntico programa. E isso depende do resgate da Criança Interior, sufocada por uma personalidade provisória que não pode atender aos ideais de nossa missão.
                Nos próximos textos, vamos falar mais sobre a Criança Interior e como identificá-la no meio de tantas outras personalidades que habitam nosso inconsciente. Sim! Elas existem e influenciam dramaticamente nosso dia a dia. Se não assistiu, indico o filme Divertidamente. Uma animação que nos dá dicas dessas vidas internas. E vamos aprender também como resgatar a nossa Criança Interior.

Um grande abraço!
Osmar Santos
Psicólogo

Confira este video no youtube clicando aqui.


Comentários

Postagens mais visitadas