A CRIANÇA INTERIOR



A CRIANÇA INTERIOR

A infância é uma época muito especial da vida. A criança, na sua conduta original e autêntica, não julga nada e considera que tudo o que é vivo tem personalidade: as plantas, os animais, os elementos da natureza, o sol, a lua, a chuva etc. Essa fantasia traz à criança uma profunda alegria de viver. Ela não tem ressentimento, sentimento de culpa e não se envolve em jogos de manipulação para fazer valer seus interesses.

Porém, muitos acreditam que a criança não é nada mais do que um adulto em miniatura, inconsciente da realidade do mundo. E, por isso, ao invés de ser acolhida, ela é adestrada para cumprir os papeis que se esperam de uma pessoa adulta na sociedade. Nesse caminho, aos poucos, em um processo mais ou menos intenso e, de certa forma natural, essa criança é moldada, formatada, pela família, pela religião, pela escola e sociedade.

A depender da intensidade desse processo, ela passa a ter sua personalidade original e autêntica impedida de se expressar livremente. Assim, a criança desenvolve uma personalidade provisória e passa, por exemplo, a sufocar certas atitudes, desejos e comportamentos, com medo de não receber afeto, de não ser amada. Ela cresce, desenvolve-se, transforma-se em um adulto. Entretanto, não põe em prática toda a sua potencialidade e não alcança uma sensação de plenitude. Por causa disso, o adulto que manteve uma personalidade provisória vive uma vida medíocre, sem sentido e infeliz. E o preço físico e psíquico que se paga por toda essa situação na meia idade é alto demais.

Então, estaria essa pessoa fadada a viver na miséria? Claro que não, pois a vida é feita de opções, escolhas, a todo o momento. Aquele ser alegre, cheio de vontade de mergulhar no mundo e desvendá-lo - aquela criança que um dia fomos - não morreu nesse percurso do nosso desenvolvimento social. Ela ainda vive dentro de nós. Talvez esteja adormecida, com medo e paralisada nas primeiras investidas agressivas contra ela na infância, mas está lá. Na psicologia analítica, ela é chamada de Criança Interior e todos nós a temos.

Isso é tão verdadeiro que basta lembrar daquela sensação de entusiasmo e de alegria que tínhamos na tenra idade... quando sabíamos que éramos capazes de fazer a diferença no mundo, de amar as pessoas, a natureza e os bichos… e que, frequentemente, ainda faz nossos olhos se encherem de lágrimas. É como a emoção de reencontrar um grande amigo que nos conhece profundamente e nos respeita. Na verdade, essa emoção é resultado do nosso contato com uma energia poderosa e vibrante que vive dentro de nós: a nossa Criança Interior. E a boa notícia é que, apesar de reprimida, podemos resgatá-la!

E por que devemos fazer esse resgate? Porque o espírito da veracidade, da absoluta espontaneidade, da autenticidade, reside nela. Suas ações traduzem em nós o que é natural, a nossa capacidade de fazer a coisa certa.

Para a psicanalista suíça Alice Miller,"... somente quando dou espaço para a voz de minha Criança Interior, é que me sinto genuína e criativa”.

Culver Baker, psicólogo inglês, observou o quanto é importante essa tomada de consciência. “Quando ficamos por demais inconscientes dela, por qualquer motivo, e por isso não a incorporamos, sua força tem todo o potencial para atividades construtivas, assim como para destrutivas. Dessa forma, ela pode conter a dinâmica criativa da personalidade humana”.

A importância e a força da Criança Interior aparecem em várias histórias de renomados autores. Peter Pan é um bom exemplo. Existem muitos outros, porém esse é o mais evidente. E o sucesso é tanto que o cinema está sempre reprisando-o em grandes produções, com a melhor tecnologia possível para aproximar ainda mais a mensagem da história à realidade das pessoas. É como se o filme dissesse: “Ei!! Olha aí!! Você tem essa criança dentro de você! Acorda!!”. E por mais que todos nós já saibamos, a cada nova versão uma espécie de curiosidade tola nos leva a assisti-lo mais uma vez. As justificativas são muitas: apenas distração, levar os filhos, saber dos efeitos especiais, etc. Mas, por que isso acontece? Porque a história fala alto às profundezas do nosso inconsciente, onde reside nossa Criança Interior.

Essa força, essa energia poderosa, vibrante, inata também permeia outros aspectos do inconsciente. São os chamados arquétipos: tipos mentais antigos que - se não surgiram junto com a humanidade - foram definidos nos primórdios dela e nos acompanham, independentemente do sexo, da cor da pele, da religião, da história ou da cultura, mesmo sem termos consciência clara disso. A Criança Interior é um arquétipo e existem muitos outros. Vamos falar mais sobre isso nos próximos textos. Por enquanto, basta saber que esses conceitos aparecem em qualquer cultura, em todos os tempos e espaços da humanidade.

Quanto à Criança Interior, somente através do contato com ela é que podemos curar nossa vida e obter uma personalidade criativa, autêntica e original. Então,  precisamos resgatá-la. Como isso é feito? O principal caminho é por meio da análise dos sonhos, das obras de arte e da prática de um exercício chamado de imaginação ativa. 

Em meus trabalhos clínicos, após ouvir as queixas de meus clientes, eu os convido a anotar os sonhos e a praticar a imaginação ativa para buscar o contato com essa infância abandonada que, em geral, os adultos possuem. Em pouco tempo, é possível obter uma ressignificação da vida. 

Apenas para se ter uma ideia do poder desse contato, cito o físico alemão  Albert Einstein, um exemplo bem conhecido do gênio em comunhão constante com a naturalidade da Criança Interior.

Diz-se que Einstein nem chegou a falar antes dos cinco anos de idade. “Até mesmo com nove anos ele não era muito fluente”, de acordo com o biógrafo Ronald W. Clark. A autenticidade daquela criança não era contaminada por palavras, mas, ao contrário, preservada por uma noção não-verbal de deslumbramento. Mesmo depois de adulto, Einstein reconhecia essa qualidade infantil em si próprio. E confiava nela diante dos obstáculos.

Em suas anotações autobiográficas, aos sessenta e sete anos, refletia: “Na realidade, não é menos que um verdadeiro milagre o fato de os métodos modernos de instrução ainda não terem estrangulado por completo a sagrada curiosidade de investigação, pois esta delicada plantinha, além de estimulação, precisa do máximo de liberdade. Sem isso, arruina-se de forma irrecuperável. É um erro muito grave pensar que o deleite de ver e buscar possa ser promovido por meio da coerção e de um senso de dever”. 

Já Emanuel Swedenborg, filósofo sueco, inventor e cientista disse: “A repressão e o castigo não educam porque constrangem”.

Um grande abraço!


Osmar Santos, psicólogo

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